segunda-feira, 5 de março de 2012

Revista Viver Curitiba

Caros leitores,

Dei uma entrevista para a revista Viver Curitiba, na edição do mês de março.

Minha contribuição está na matéria da página 98 à página 100. Eis o link pra quem quiser ler.

Abraços e uma ótima semana!


Viver Curitiba - março

quinta-feira, 1 de março de 2012

A cura gay

O clima é de guerra. De um lado, estão os gays e os Conselhos de Psicologia, em suas vertentes federal e regionais, de outro, os cristãos, mais especificamente o povo evangélico. O tema do embate é (aqui não há como evitar as aspas) "a cura da homossexualidade".

O certame teve início nos anos 90, quando militantes do movimento gay, em particular a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), começaram a denunciar aos conselhos os autointitulados psicólogos cristãos, que prometiam curar homossexuais.

A ABGLT, pedia punições a esses profissionais com base no Código de Ética do Psicólogo, que, em seu artigo 2º, b proíbe: "induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais".

Em 1999, depois de alguns casos rumorosos na mídia, o Conselho Federal (CFP) baixou a resolução nº 001/99, que não deixa nenhuma margem a dúvida:

"Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.

Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".

Evidentemente, a briga continua, mas agora no plano da opinião pública e do Legislativo. Além de nos bombardear com e-mails sobre a "perseguição" a psicólogos cristãos, os evangélicos tentam no Congresso aprovar um projeto de decreto legislativo (PDC 234/11) para sustar artigos da resolução do CFP.

Vale observar que o proponente da matéria, o deputado João Campos (PSDB-GO), também tem projetos de decreto para derrubar a decisão do Supremo Tribunal Federal que legalizou as uniões estáveis homossexuais e a que autorizou as marchas da maconha.

A iniciativa do parlamentar social-democrata (sim, há ironia no adjetivo) é uma tremenda de uma bobagem. Da mesma forma que um médico não pode hoje sair por aí dizendo que cura a doença de Huntington e um físico está impedido de afirmar que faz o tempo correr para trás, um psicólogo não pode proclamar que possui terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem ao menos considera uma doença. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da disciplina.

Não existe algo como psicologia cristã, hidrostática católica ou cristalografia judaica. Idealmente, juízos científicos se sustentam na racionalidade amparada por evidências (mas a questão é mais complicada, como veremos ao final do artigo).

É claro que a ciência, ao contrário das religiões, não trabalha com dogmas. Um pesquisador que pretenda provar que o homossexualismo é uma doença pode tentar fazê-lo em fóruns apropriados, como congressos e trabalhos científicos, e sempre apresentando argumentações técnicas, cuja validade e relevância serão julgadas procedentes ou não por seus pares. Se ele os convencer, muda-se o paradigma. Caso contrário, ou ele abandona o assunto ou deixa de falar na condição de psicólogo.

Como cidadão, acredito eu, todos sempre poderão dizer o que bem entendem --além de fazer tudo o que não seja ilegal. Padres e pastores vivem afirmando que o homossexualismo é pecado sem que o céu lhes caia sobre a cabeça. É claro que a ABGLT protesta e de vez em quando um membro do Ministério Público pode tentar alguma estrepolia, mas isso é do jogo. Apesar de alguns atritos, a liberdade de expressão vem sendo relativamente respeitada no Brasil nos últimos anos, como o prova a decisão do STF sobre a marcha da maconha que o representante do PSDB quer derrubar.

Vou um pouco mais longe e, já adentrando em terrenos hermenêuticos menos sólidos, arrisco afirmar que nem o Código de Ética nem a resolução do CFP impedem um psicólogo de, em determinadas condições, ajudar um homossexual que busca abandonar suas práticas eróticas.

Imaginemos um gay que, por algum motivo, esteja profundamente infeliz com a sua orientação sexual e deseje tornar-se heterossexual. O dever do profissional que o atende é tentar convencê-lo de que não há nada de essencialmente errado no fato de ser gay. Suponhamos, porém, que o paciente não se convença e continue sentindo-se desajustado. Evidentemente, ele tem o direito de tentar ser feliz buscando "curar-se". E seu psicólogo não está obrigado a abandonar o caso porque o paciente não aceita a ciência. Ao contrário, tem o dever ético de fazer o que estiver a seu alcance para diminuir o sofrimento do sujeito.

O que a resolução corretamente veta é que o psicólogo coloque na cabeça de seus pacientes a ideia de que ser gay é uma falha moral que pode e deve ser revertida. Impede também que ele faça propaganda em que promete terapias efetivas.

Dito isto, não acho uma boa estratégia a do movimento gay de vincular a defesa dos direitos de homossexuais a uma teoria científica. Este me parece, na verdade, um erro grave.

Para começar, a ciência está calcada em hipóteses que podem por definição ser refutadas a qualquer momento. Vamos supor que o fundamento lógico para eu recusar a discriminação contra gays resida na "evidência científica" de que o homossexualismo tem componentes genéticos e ambientais, não sendo, portanto, uma escolha que possa ser modificada. Imagine-se agora que alguém demonstre de forma insofismável que tais evidências estavam erradas. O que ocorre neste caso? A discriminação fica legitimada?

Não é preciso puxar muito pela memória para lembrar que movimentos por direitos civis e "ciência" (sim, fora dos manuais de epistemologia, ela é uma atividade humana como qualquer outra que caminha ao sabor de circunstâncias políticas e constructos sociais) já estiveram em lados diferentes das trincheiras. Até 1990, a Organização Mundial da Saúde listava o homossexualismo como uma doença mental. Os psiquiatras americanos faziam o mesmo até 1977. Não sei se recomendava ou não o exorcismo, mas certamente autorizava profissionais da saúde mental a tentar a "cura".

O argumento contra a discriminação de minorias precisa ser moral. É errado discriminar gays, negros e membros de qualquer seita religiosa porque não gostaríamos de sofrer tal tratamento se estivéssemos em seu lugar.

Hélio Schwartsman – Folha.com

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Notas sobre a cracolândia

por   Contardo Calligaris

 A escolha de se drogar é uma doença? Consideramos doente quem não se autorregula como nós?
Alguns leitores pediram que eu me posicionasse sobre a operação policial que tenta acabar com a cracolândia de São Paulo. Aqui vão três posicionamentos. 
1) Sou contra violência e abusos repressivos (em  tese, o governo também é).
2) Com ou sem internações não voluntárias, com ou sem a boa vontade de  ONGs e igrejas, só uma ínfima parte dos drogados desistirá do crack e  da errância pelas ruas da cidade.
3) E enfim, em tese, sou a favor do projeto de acabar com a  cracolândia, mas não me orgulho disso, por duas razões: a primeira é  que tenho carinho pelas sarjetas urbanas e ainda sinto falta da Times  Square de Nova York nos anos 1970; a segunda pede uma explicação mais
longa.
A operação cracolândia e o debate que a acompanha na imprensa ilustram as dificuldades do poder na modernidade. Num dos seus melhores seminários (o de 1975, "Os Anormais", Martins Fontes), Foucault mostra que esse poder oscila entre dois modelos: o da lepra e o da peste. Os diferentes e infratores podem ser retirados da circulação, fechados na  prisão, na colônia agrícola, no antigo asilo. Esse é o modelo adotado para a lepra; ele segrega no lazareto.
Mas, às vezes, os diferentes e infratores, muito numerosos, espalham-se pelo tecido social de forma que sua segregação seria improvável. É o que acontecia no caso da peste. Os contaminados,  então, não eram fechados em lazaretos afastados, mas a cidade era dividida em quadras, que eram vigiadas por, digamos, agentes sanitários: os doentes eram proibidos de deixar seu domicílio, e o  governo administrava a vida (e a morte) deles dentro de suas próprias  casas. O modelo da peste tinha duas vantagens: ele permitia gerir intimamente
a vida concreta das pessoas, e sua motivação aparente era nobre:  "curá-las". 
Por isso, aliás, ele contaminou o modelo da lepra: quase não há mais detenção (modelo da lepra) que não cultive a ilusão de que ela será, para o detento, uma ocasião de redenção ou de cura (modelo da peste).
Hoje, podemos ser infratores e incômodos, mas raramente somos "ruins" e irrecuperáveis: seremos emendados pelos bons cuidados da sociedade, pois, de fato, éramos (ou melhor, estávamos) apenas "doentes". Será que este modelo nos deixa mais livres? Engano. Atrás da face indulgente do poder que se inspira no modelo da peste (o infrator estava doente, não fez por querer, está "desculpado"), esconde-se uma face especialmente tirânica: qualquer ato dissonante é reconhecido não como fruto de rebeldia ou originalidade, mas como efeito de uma patologia. Você é contra? Você é diferente? Pois bem, você está doente. Não há mais dissenso -só enfermos e loucos.
Voltemos à cracolândia. Talvez a toxicomania, uma vez instalada, seja uma espécie de doença. Mas a escolha inicial de se engajar na droga, será que é uma doença? Consideraremos doente (por alguma disfunção do córtex pré-frontal, por exemplo) qualquer sujeito que não se autorregule como a gente?
Anos atrás, jovem psicanalista, no norte da França, eu me ocupava de adolescentes "problemáticos" pelas drogas que consumiam, pela desistência escolar, por uma criminalidade difusa e pela violência contra os adultos que se opunham a suas vontades. Alguns eram filhos de excluídos, outros inventavam uma marginalidade própria, não herdada.
Um desses jovens escutou pacientemente enquanto eu tentava convencê-lo a frequentar as sessões de terapia e a aceitar a ajuda de uma assistente social, que facilitaria sua reinserção. Quando acabei, ele me disse, pausadamente, olho no olho: "O que lhe faz pensar que eu queira ter uma vida parecida com a sua?".
Conclusão. Podemos tentar curar os "noias", ou seja, esperar suprimi-los de um jeito mais radical do que apenas prendendo-os. De qualquer forma, agimos porque os achamos insalubres para nós.  E peço que ninguém pretenda me convencer que a dita cura, à diferença
 da segregação ou das porretadas, seria para o bem (ou para a  dignidade) deles.
Detalhe. Originalmente, os modelos da lepra e da peste foram maneiras  diferentes de lidar com o risco de um contágio. Quando tentamos  "curar" vagabundos ou drogados talvez estejamos também reagindo ao risco de um contágio pelas margens sociais. Como assim?
Nunca estamos realmente convencidos de que temos razão de sermos bem pensantes e bem comportados. "Curar" à força os perdidos da cracolândia nos ajuda a evitar a sedução que sua "noite suja" exerce sobre nós.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sobre o que é moderno e o que... nem tanto


Acho que o mundo atual se divide em dois grandes grupos. O grupo das pessoas que acham que a modernidade é uma maravilha, que nos traz muitos benefícios, como remédio pra dormir, a possibilidade de um corpo perfeito, a internet pra passar o tempo, o iphone com mil funções, etc. E o grupo das pessoas que acham que a modernidade nos traz desorientação, visto que a gente tem tantas coisas pra se distrair que acaba se distanciando de nós mesmos, que os homens não sabem mais ser homens, que as mulheres se perdem em plásticas, silicones, lipoaspirações e tal.

O fato é que, cada vez me incomodo mais com ambas afirmativas. Fico pensando que eu só vivi nesse tempo. Assim, é claro que consigo perceber mudanças radicais no mundo. A internet revolucionou a vida das pessoas, e eu mesma que não nasci com o Google regendo a minha vida, hoje não sei como é que pude viver sem ele antes. Mas me parece que também nós mudamos com o mundo e por isso não podemos fazer críticas imparciais.

Ontem, assistindo ao programa global “Altas horas”, vi um trecho em que um garoto de mais ou menos 15 anos de idade, na plateia, perguntou ao Caetano Veloso alguma coisa como se ele achava que a música de hoje, por ser muito amorosa, muito melosa (referindo-se à onda dos “coloridos”) perdia alguma coisa em relação à época em que a música era atravessada pela ditadura. Então o Caetano Veloso respondeu algo como que as músicas, desde sempre, falam de amor. E que as coisas mudam, mas não se perdem, que no fim das contas é a mesma coisa, e que o garoto tinha saudade de um tempo que não viveu.

Essa frase me deixou pensativa, porque me parece que temos a tendência de romantizar aquilo que já se foi. O próprio senso-comum diz que só aprendemos a dar valor àquilo que  perdemos. Naquele tempo que era bom, a gente diz e se lembra da nossa infância, dos desenhos que víamos na época, dos brinquedos que tínhamos. O interessante aqui é que há coisas que nunca tivemos, mas que romantizamos uma perda, tal qual como se tivéssemos tido, em algum tempo. Aí está o adolescente no Altas Horas que não me deixa mentir. Um menino que não viveu no tempo da ditadura, com saudades dela. E acho que é justamente esse o conceito de falta, saudades de uma coisa que nunca vivemos. Vontade de comer uma coisa que não existe, saudades de alguém que nunca conhecemos. E fica sempre mais fácil distorcer a lembrança de algo que já passou do que distorcer a realidade atual.

E acho que os nossos discursos, sejam eles a favor ou contra os benefícios da modernidade, não falam da modernidade. Falam é de uma condição humana. Sim, a felicidade que a gente acredita que vai ter quando estamos em algum tempo primitivo da vida, não é mesmo do modo como a gente imaginou. Pois é, dormir, quando a gente tem vários problemas a resolver, pode não ser a coisa mais natural do mundo. É verdade, há mesmo uma ideia de que um corpo feminino bonito é magro e cheio de curvas, e que pouquíssimas mulheres têm a sorte de tê-los naturalmente.

Mas acho que no fundo, são apenas as diferentes formas que temos para lidar com a falta. (Refiro-me aqui ao conceito psicanalítico de que os seres humanos não são completos, mas faltantes) É fato que o mundo está em constante mudança. Mas nós, seres humanos, somos o mundo. Logo, nós mudamos também. E mudam as maneiras de lidarmos com a vida, e mudam as neuroses, e mudam os sintomas. Mas a falta, esta está sempre ali. Esta está sempre aqui. Esta não muda, e acho que no fim das contas, é apenas disso que se trata. Nem boa nem má é a modernidade, é o que temos. Inevitável, assim como nós.



Imagem deviantART

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Eduardo Galeano

Se tem um vídeo que merece ser compartilhado, é esse, em que Eduardo Galeano, escritor uruguaio, nos dá tapas e beijos na alma, com suas palavras sobre a vida.


Destaco abaixo alguns trechos:

"Pra que merda viver? Se não for porque acredito em algo melhor que isso que é o que me espera."

"Os intelectuais me dão pena! Eu não quero ser um intelectual! (...) Os intelectuais são os que divorciam a cabeça do corpo. Eu não quero ser uma cabeça que rola por aí! Eu sou uma pessoa! Sou cabeça, corpo, sexo, barriga, tudo! Mas não um intelectual, esse personagem abominável! Como diza Goya: "A razão cria monstros". Cuidado com quem somente raciocina. Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. E quando a razão se separa do coração, comece a tremer. Porque esse tipo pode te levar ao fim da existência humana no planeta. Eu não acredito nisso. Eu acredito nessa fusão contraditória, difícil mas necessária, entre o que se sente e o que se pensa. E se aparece um que só sente, mas não pensa, digo: esse é um sentimental. Mas se for um que só pensa, mas não sente, digo: ai, que medo! Esse é um intelectual! Que coisa espantosa! Uma cabeça que rola. Eu não quero ser uma cabeça."

"Essa sabedoria não me interessa mais. Me interessa a que combina o cérebro com as tripas. Essa que combina tudo o que somos. Tudo, sem esquecer de nada. Nem barriga, nem o sexo, nada, nada. Nem a cabeça que pensa, que é útil também. Mas cuidado. Porque a cabeça que pensa sozinha...é perigosa."

"Esse foi o mandamento que Deus esqueceu de dizer: "Serás parte da Natureza. Obedecerás a Natureza da qual fazes parte". Deus se esqueceu porque estava ocupadíssimo. Está em tempo de recuperá-lo."



(Obs: Cheguei a esse vídeo por recomendação da Eliane Brum, em sua coluna de HOJE, na revista Época.)