por Contardo Calligaris
A escolha de se drogar é uma doença? Consideramos doente quem não se autorregula como nós?
Alguns leitores pediram que eu me posicionasse sobre a operação policial que tenta acabar com a cracolândia de São Paulo. Aqui vão três posicionamentos.
1) Sou contra violência e abusos repressivos (em tese, o governo também é).
2) Com ou sem internações não voluntárias, com ou sem a boa vontade de ONGs e igrejas, só uma ínfima parte dos drogados desistirá do crack e da errância pelas ruas da cidade.
3) E enfim, em tese, sou a favor do projeto de acabar com a cracolândia, mas não me orgulho disso, por duas razões: a primeira é que tenho carinho pelas sarjetas urbanas e ainda sinto falta da Times Square de Nova York nos anos 1970; a segunda pede uma explicação mais
longa.
A operação cracolândia e o debate que a acompanha na imprensa ilustram as dificuldades do poder na modernidade. Num dos seus melhores seminários (o de 1975, "Os Anormais", Martins Fontes), Foucault mostra que esse poder oscila entre dois modelos: o da lepra e o da peste. Os diferentes e infratores podem ser retirados da circulação, fechados na prisão, na colônia agrícola, no antigo asilo. Esse é o modelo adotado para a lepra; ele segrega no lazareto.
Mas, às vezes, os diferentes e infratores, muito numerosos, espalham-se pelo tecido social de forma que sua segregação seria improvável. É o que acontecia no caso da peste. Os contaminados, então, não eram fechados em lazaretos afastados, mas a cidade era dividida em quadras, que eram vigiadas por, digamos, agentes sanitários: os doentes eram proibidos de deixar seu domicílio, e o governo administrava a vida (e a morte) deles dentro de suas próprias casas. O modelo da peste tinha duas vantagens: ele permitia gerir intimamente
a vida concreta das pessoas, e sua motivação aparente era nobre: "curá-las".
Por isso, aliás, ele contaminou o modelo da lepra: quase não há mais detenção (modelo da lepra) que não cultive a ilusão de que ela será, para o detento, uma ocasião de redenção ou de cura (modelo da peste).
Hoje, podemos ser infratores e incômodos, mas raramente somos "ruins" e irrecuperáveis: seremos emendados pelos bons cuidados da sociedade, pois, de fato, éramos (ou melhor, estávamos) apenas "doentes". Será que este modelo nos deixa mais livres? Engano. Atrás da face indulgente do poder que se inspira no modelo da peste (o infrator estava doente, não fez por querer, está "desculpado"), esconde-se uma face especialmente tirânica: qualquer ato dissonante é reconhecido não como fruto de rebeldia ou originalidade, mas como efeito de uma patologia. Você é contra? Você é diferente? Pois bem, você está doente. Não há mais dissenso -só enfermos e loucos.
Voltemos à cracolândia. Talvez a toxicomania, uma vez instalada, seja uma espécie de doença. Mas a escolha inicial de se engajar na droga, será que é uma doença? Consideraremos doente (por alguma disfunção do córtex pré-frontal, por exemplo) qualquer sujeito que não se autorregule como a gente?
Anos atrás, jovem psicanalista, no norte da França, eu me ocupava de adolescentes "problemáticos" pelas drogas que consumiam, pela desistência escolar, por uma criminalidade difusa e pela violência contra os adultos que se opunham a suas vontades. Alguns eram filhos de excluídos, outros inventavam uma marginalidade própria, não herdada.
Um desses jovens escutou pacientemente enquanto eu tentava convencê-lo a frequentar as sessões de terapia e a aceitar a ajuda de uma assistente social, que facilitaria sua reinserção. Quando acabei, ele me disse, pausadamente, olho no olho: "O que lhe faz pensar que eu queira ter uma vida parecida com a sua?".
Conclusão. Podemos tentar curar os "noias", ou seja, esperar suprimi-los de um jeito mais radical do que apenas prendendo-os. De qualquer forma, agimos porque os achamos insalubres para nós. E peço que ninguém pretenda me convencer que a dita cura, à diferença
da segregação ou das porretadas, seria para o bem (ou para a dignidade) deles.
Detalhe. Originalmente, os modelos da lepra e da peste foram maneiras diferentes de lidar com o risco de um contágio. Quando tentamos "curar" vagabundos ou drogados talvez estejamos também reagindo ao risco de um contágio pelas margens sociais. Como assim?
Nunca estamos realmente convencidos de que temos razão de sermos bem pensantes e bem comportados. "Curar" à força os perdidos da cracolândia nos ajuda a evitar a sedução que sua "noite suja" exerce sobre nós.
8 comentários:
Eu ouvi hoje na rádio o questionamento sobre a internação compulsória e fiquei muito na dúvida. Claro que cada caso é um caso, mas eu penso que tudo que é feito contra nossa vontade nunca terá resultado pleno, ninguém será curado a menos que sinta tal necessidade. Depende muito da própria pessoa o processo de cura, de modo que a violência não vai servir de catalizador nesse processo curativo.
Dessa forma eu penso que a internação compulsória trará sim bons resultados para a opinião pública, para o visual da cidade, talvez até engane os familiares de que seu parente dependente químico está melhorando do vício, mas é ilusão, internar uma pessoa numa clinica, enclausurá-la e dopá-la com remédios é voltar à idade média, é reinstaurar o modelo repressor manicomial da forma mais cruel e abusiva possível.
Não penso que essa seja a melhor solução para a cracolância. Mas se você me perguntar qual seria então, infelizmente eu não sei te dizer.
Bjo
É o assunto difícil de entender, como não temos estrutura para resolver isso? Abraço Cynthia
Achei legal a iniciativa de um Padre que acompanha a cracolandia. Ele apenas os escuta, ouve suas histórias e consegue aos poucos, retirar o sujeito que está perdido na nóia. Por quanto tempo dura esse efeito? Até que ele se perca de novo...
Afinal, é o método psicanalítico nas ruas. E assim como em nossas confortáveis clínicas, leitos hospitalares, ou outros locais, ele tem o mesmo efeito, devolver ao ser humano o sentido de ser humano, sua história, sua vida, sua própria loucura. Ao contrário da violência que tenta calar a gente deixa falar...
É dificil encarar o fato de que a vida que levamos pode não ter o sentido que imaginamos.
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0210
Olá!
É um grande prazer conhecer seu blog e poder ler o que escreves.
Acredito que quando escrevemos com prazer conquistamos amigos e fiéis amantes das palavras. Sabemos o quanto é difícil levar a nossa voz, as nossas angustias os nossos sonhos às pessoas. Mas o mais importante é saber que você e eu gostamos daquilo que fazemos.E acreditamos que o mundo pode se tornar bem melhor através de nossos escritos.
Grande abraço
Se cuida
A cracolândia paulistana é uma amostra da realidade de um país que faz o impossível para maquiar sua aparência. É a consequência da opressão social apoiada pelos joguinhos políticos, e somente tornou-se um incômodo para a sociedade porque está causando prejuízo para ela, porque os noias estão invadindo seu quintal e roubando as tão significantes aquisições.
Abraços, Ana Suy! Vou ler um pouco mais de Foucault ...=]
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