domingo, 19 de junho de 2011

Vão-se os anéis, ficam os dedos








Ganhara de presente um anel dourado, coisa de menina bem-cuidada, que era ela. Presente de mãe. E com ele, ganhara junto, todo um mundo em anexo. Descobriu que se aproximasse a mão do anel até quase encostá-la em um olho, e fechasse o outro, podia ver uma outra dimensão do mundo.

Via um mundo muito fresco, repleto de flores amarelo-mato, daquelas que só uma criança pode enxergar a beleza. Transportava-se para esse mundo. E de repente estava sentada, com um pedaço de grama gelada lhe fazendo cócegas nas canelas. Punha-se a andar.

O mato cortava as suas pernas arroxeadas de hematomas de um jeito doce que só fazia amolecer o coração.

Alimentava-se de sonhos e ali estava sempre sozinha. Não havia ontem e nem amanhã. Nada existia. Nada importava. Era um mundo mudo.

E o anel virou companhia importante. Era a sua rota de fuga a tiracolo. Acontecesse o que fosse, ela sempre podia recorrer ao anel, que lhe transportava para aquele mundo que era todo dela.

Acontece que um dia, sabe-se lá qual, a menina perdeu o anel. E descobriu que aquele mundo que ela tinha feito, mais estava nela do que na joia. Descobriu que às vezes fechar os olhos era o suficiente para se transportar para onde quisesse. E que se aqui ficava, era por sua própria escolha... Um mundo mudo não lhe servia.

E aí descobriu também que todas as coisas que lhe chegavam muito perto lhe impossibilitavam de ver nitidamente. Soube que só podia ver as coisas com clareza, se elas não a tocassem. Porque tudo o que a tocava, transformava-se imediatamente nela mesma.










12 comentários:

Flor de Lótus disse...

Adoro o verso de Pessoa que diz que para viajar basta existir. E acho que é bem isso com ou sem o anel, só pelo fato de exisitr a menina poderia ir para onde quisesse, por onde sua imaginação lhe permitisse ir, e ela sabia disso.
Beijosss

Lívia Azzi disse...

Essa menina sabia divinizar as coisas... ;-)

SolBarreto disse...

Nossa adorei isso!Tão real...
"E aí descobriu também que todas as coisas que lhe chegavam muito perto lhe impossibilitavam de ver nitidamente. Soube que só podia ver as coisas com clareza, se elas não a tocassem. Porque tudo o que a tocava, transformava-se imediatamente nela mesma. "

Vanessa Souza Moraes disse...

É preciso um certo distanciamento para enxergar.

Carina B. disse...

Ana... Estou sem palavras. Pensei "lindo, singelo, delicado, forte". Um milhão de adjetivos não dão conta do que li aqui.

Obrigada.
:)

Ayanne Sobral disse...

Lindo!

A suavidade das palavras, o encaixe perfeito de cada uma, a força poética dessas linhas - que se encaixam em tantas situações - me tocou com a suavidade de um beijo na testa.

Isso que tu faz cutuca tão por dentro de mim, sabia?
É dolorido, mas é doce. E viciante.

Lindo, Ana. Sempre.

LuH disse...

"E descobriu que aquele mundo que ela tinha feito, mais estava nela do que na joia."

Faz todo sentido!

Ver#enxergar- olhar com distanciamento seria aperfeiçoar a lente. Apaga-se uma vela, acende uma fogueira


Abç

Psicanálise Curitiba disse...

Mas foi só a partir do ganho e da perda que ela pôde compreender. Bonito, Ana... um belo objeto transicional ;)
E você escrevendo cada vez melhor.
Um abraço!
Vani.

P.B.H. disse...

Senti uma ressonância muito forte com a Virgínia de "O Lustre", daquela autora aí...

Talita Prates disse...

Eu adorei. Do anel-símbolo para o anel-de-dentro.

Linda construção!

Bjo, Ana.

Talita
História da minha alma

Layz Costa disse...

lindoo, ameii....
e passo a te seguir querida....

tenha uma ótima semana!

Leo disse...

Que singelo, me botei a fechar os olhos também.