segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O amor no percurso da obra de Lacan - parte 1 de 3


Freud pensa o amor articulado à sexualidade. No Manuscrito G e no texto “Tratamento Psíquico”, ele trata da paixão amorosa quando analisa a melancolia e chama atenção para o fato dos melancólicos possuírem um "anseio pelo amor na sua forma psíquica - uma tensão psíquica de amor". Nestes textos Freud teoriza a relação passional, em função do amor da criança a seus pais, e a situação de dependência estabelecida entre o hipnotizador e o hipnotizado. Em 1910 até 1918, Freud escreve "Contribuições à psicologia do amor", em 1914 "Sobre o narcisismo: uma introdução", e em 1921 "Psicologia de grupo e análise do ego".


O conceito do narcisismo fundamenta uma nova orientação da teoria da libido e das relações de objeto.


Freud define o amor com referência ao narcisismo primário, que diz respeito ao investimento libidinal do sujeito no próprio ego, como também aos investimentos objetais da primeira infância. A paixão amorosa é colocada como uma revivência das relações primárias do sujeito, em um encontro que busca recuperar experiências prazerosas.


A primeira abordagem de Freud sobre o fenômeno da paixão é feita numa perspectiva econômica e se refere aos investimentos libidinais. A paixão amorosa implica uma retirada da libido do ego para o investimento objetal, ocorrendo um transbordamento no enamoramento, em decorrência de um excessivo investimento do objeto.


Freud afirma que os objetos de investimento sexual da criança derivam de suas primeiras experiências de satisfação, apoiadas sobre as funções vitais. Freud diz que as escolhas amorosas posteriores têm sua origem nas experiências de satisfação que se dão na relação com a mãe. Esses primeiros objetos de investimento sexual da criança fornecerão a matriz nas quais se moldarão as escolhas amorosas ulteriores.


A teoria do amor como narcisismo é uma teoria sobre o apaixonamento romântico, em que o objeto é idealizado e escolhido como único e insubstituível, se apresentando como promessa de plenitude imaginária e felicidade, no qual convergem o amar e o desejar.


A libido, que estaria originalmente investida no eu, é posteriormente cedida aos objetos e pode se retrair novamente para o eu, como o corpo de uma ameba que estende e retrai seus pseudópodos.


A expressão máxima de libido objetal é o estado de apaixonamento, enquanto seu oposto. O grau máximo de libido narcísica corresponde à fantasia de "fim do mundo" dos paranóicos. Desse modo, a libido objetal corresponde às neuroses enquanto a libido egóica se vincula aos fenômenos psicóticos.

O conceito de narcisismo faz referência ao investimento libidinal no eu - o amor a si mesmo - implicando, necessariamente, a noção do eu. Desde o estudo do Caso Schreber, em 1911, Freud concebia o narcisismo como uma fase intermediária entre o auto-erotismo e o amor de objeto, fase em que as pulsões sexuais parciais, antes dispersas, se unificam com o objetivo de constituir um novo objeto amoroso/sexual.


Freud utiliza o termo ''narcisismo" pela primeira vez, em 1910, para explicar a escolha amorosa homossexual. Em 1914, Freud distingue dois tipos de escolha do objeto amoroso: a escolha narcísica e a escolha anaclítica ou de apoio, possuindo o sujeito dois objetos originários: ele mesmo e a mulher que o criou (ou o pai que protege).


Quando o narcisismo primário predomina na escolha, os sujeitos procuram a si mesmos como objeto de amor, apresentando uma escolha de tipo narcisista. Como exemplo, Freud se refere a mulheres geralmente belas, que amam apenas a si mesmas e, conseqüentemente, os homens que as amam. A aspiração delas é ser amadas, e se ligam aos homens que podem satisfazer essa condição.

A escolha de tipo anaclítica, considerada por Freud um "pleno amor de objeto", seria própria dos homens, que tendem a escolher seu objeto amoroso segundo o modelo das pessoas encarregadas dos cuidados infantis.

Ainda que Freud entenda que as possibilidades de escolha de objeto - anaclítica ou narcísica - se apresentam diante de todos os seres humanos em proporções variáveis, considera que a escolha anaclítica,que é o pleno amor objetal, é característica do homem, enquanto a escolha narcísica é propriamente feminina. Retrata-se um homem apaixonado, que supervaloriza o objeto sexual, como protótipo de amor objetal, e uma mulher narcisista, que não deseja sexualmente, como protótipo de amor narcísico.

O homem apaixonado seria um homem capaz de exercer um "amor normal", de amar e desejar (superando a impotência psíquica generalizada do homem moderno), enquanto a mulher narcisista seria incapaz de amar, porque só se ama a si própria, e incapaz de desejar, "permanecendo fria com o homem" (constituindo um caso grave de impotência psíquica que nem sequer desenvolve os recursos da cisão da vida amorosa para preservar a sensualidade). Embora Freud se declare "alheio a qualquer tendenciosidade, considerando que essas conformações psíquicas decorrem de questões biológicas, vemos que desliza nos preconceitos sexistas da época. A saída para a mulher narcisista, que a levaria ao amor objetal, seria o amor pelo filho, finas quando Freud classifica as modalidades do amor narcísico, inclui nele o amor "à pessoa que foi uma parte de si mesmo", redefinindo o amor ao filho como narcísico e, portanto, a forma de amar das mulheres como necessariamente narcísica.

A escolha anaclítica, cujo paradigma era a imagem dos Três Ensaios do bebê sugando o seio materno, nos leva a articular a idéia do amor com as pulsões de auto-conservação. Assim, se ama quem cuida, quem nutre, quem protege (a mãe nutriz ou o pai protetor), o que coloca o amor em relação à satisfação das pulsões egóicas e o remete à noção de apoio.

A noção de apoio ou anáclise descreve a relação das pulsões sexuais com a satisfação das necessidades biológicas. Com a Introdução do narcisismo, retoma-se a noção de anáclise em referência a um "tipo de escolha amorosa que se constitui apoiada na satisfação das pulsões egóicas".

É possível interpretar a escolha anaclítica como um amor baseado nos cuidados e proteção que a criança recebe dos pais, de forma direta ou imediata, ou como um alvor que se constitui na medida em que esses pais que cuidam se tornam objetos sexuais. No primeiro caso, a criança amaria os pais - e os objetos substitutos - com um laço de ternura que se desenvolveria independente da satisfação erótica obtida e, no segundo, a criança amaria os pais porque eles satisfariam suas pulsões sexuais.
Márcio Peter
Continua...

Um comentário:

Anônimo disse...

adaptações procter cria percebiam núcleo deixarem explicada revogada juntos algumas